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Instrumentos musicais tradicionais Portugueses

Introdução


"... Quem tocará ainda a bandurra beiroa e a viola campaniça, desaparecidos o tio Manuel Moreira, de Penha Garcia, e o Jorge Caranova de Santa Vitória?... E quando se for o Virgilio Cristal, quem ficará para tocar o deslumbrante tamboril e flauta em terras mirandesas?... E bom, é mau? E a lei dos tempos para lá do bom e do mau... e quando as alvíssaras da Páscoa ou as alvoradas dessas bárbaras festas transmontanas forem feitas por um altifalante instalado numa fourgoneta que atroa os ares com a última canção duma vedeta da rádio, o mundo terá certamente perdido uma grande riqueza - ou melhor: a riqueza do mundo valerá muito menos a pena ser vivida." Ernesto Veiga de Oliveira.
"Em todos os tempos e em todos lugares o homem sempre mostrou grande engenhosidade ao fazer nascer o som e a música a partir de materiais existentes no seu ambiente natural. ... A voz e o bater das palmas podem certamente considerar-se as primeiras formas instru-mentais usadas pelo homem, desde os tempos mais remotos, e que se encontram em muitas sociedades. Além dessas formas naturais, porém, desenvolveram-se através dos milénios instrumentos musicais mais ou menos bem elaborados, com os materiais que o ambiente natural fornece, e conforme a evolução técnica dos diferentes povos. As influências de outras culturas são aproveitadas e os instrumentos difundidos sofrem transformações dependentes das possibilidades e condições locais..." Margot Dias

 

Essa procura, em paralelo com as capacidades de modulação da voz e de percussão do corpo, tem levado ao aperfeiçoamento de objectos sonoros. Uma cana de bambu, uma pele ou uma corda esticada, criaram os primeiros instrumentos musicais. O seu uso teve um papel de tal maneira importante na história das civilizações que a sua invenção tem sido, em várias culturas atribuída aos deuses. Objectos de mitos e também de rituais o seu som representa a voz dos antepassados. Mas é também através deles que os homens encontram um meio de mostrar a sua alegria e a sua tristeza, o seu amor e o seu odio. Eles são testemunhos não só de usos e crenças e dos símbolos aos quais estão associados, mas também dos feitos históricos, dos universos culturais e das invenções tecnológicas. E como objectos de arte, da época e do meio social onde são produzidos. Por isso, conhecermos de perto estes objectos é conhecermos também um pouco a história do nosso povo, das regiões onde habita, dos seus hábitos de festa, de religião, de trabalho, da diversidade das suas formas culturais e artísticas já que os instrumentos musicais são, com nos diz Alessandro Sistri:

 

"... Documentos complexos que nos ajudam a conhecer diferentes aspectos da cultura a que pertencem, por serem objectos síntese do sistema expressivo sonoro-musical e do sistema simbólico-material, em que as funções sonora, simbólica e estética interagem e as componentes decorativas, iconográficas e plásticas dão sentido mágico ao instrumento..."

Portugal forma-se com Nação num território culturalmente abrangido pela Península Ibérica. A este espaço confluem vários povos e culturas que até ao séc. XVI se vão influenciar mutuamente, conservando particularidades que Ihe são próprias e criando por isso aspectos muito ricos, nomeadamente no campo da música e dos instrumentos musicais. Neste aspecto tem particular importancia a ocupação árabe. Os seus músicos alcançaram grande prestígio e alguns dos seus instrumentos foram rapidamente copiados e utilizados pelos músicos cristãos. Alguns deles chegam até aos nossos dias mantendo o nome árabe como por exemplo o adufe. Os materiais usados na feitura dos instrumentos são também reveladores das actividades quotidianas dos seus proprietários. Instrumentos feitos com peles de animais como por exemplo a gaita de foles, o adufe e a sarronca são de carácter pastoril aparecendo por isso nas regiões do país onde essa actividade é predominante.


Distribuição Regional


Na verdade a caracterização geográfica do País está intimamente ligada à distribuição das formas instrumentais. Ernesto Veiga de Oliveira apoia-se na divisão que Orlando Ribeiro faz em Portugal Atlântico, Transmontano e Mediterrâneo. "... Sob o ponto de vista paisagístico e cultural especial e muito geral, distinguiremos em Portugal, ao norte do Tejo duas áreas fundamentais por um lado, as terras do planalto alto e leste transmontano e beirão, marcadamente arcaizantes e pastoris, fechadas em si mesmas até épocas muito próximas, na vastidão de um horizonte severo e áspero, e onde formas de vida extremamente antigas eram (e são ainda em muitos casos) a atmosfera quotidiana; por outro lado, as terras baixas a ocidente da barreira central, do Minho ao Tejo, populosas, conviventes, intensamente humanizadas, abertas a todas as influências e naturalmente impelidas para fórmulas mais progressivas, embora imersas ainda em inúmeros sectores culturais, no seu ambiente tradicional. O Alentejo, sob certos aspectos, prolonga a sul, o panorama pastoril do planalto; a cultura regional reflecte uma personalidade original muito forte, e é também acentuadamente tradicional, mas a marca do espaço é ali mais sensível do que a do tempo. E no Algarve, por seu turno, inversamente, condições paralelas às que apontamos nessas regiões nortenhas ocidentais estão na base de um ambiente que sob certos aspectos, se assemelha ao dessas terras..."

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MINHO
No Minho os instrumentos mais importantes são os conjuntos instrumentais das RUSGAS, da CHULA, e também dos ZÉS-PEREIRAS.
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TRÁS-OS-MONTES
Em Trás-os-Montes, além dos conjuntos instrumentais do GAlTElRO e TAMBORlLElRO,tem também importância o PANDEIRO, membranofone de forma quadrangular, geralmente tocado pelas mulheres a acompanhar todo o género de cantares de festa.
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BEIRA LITORAL
Também nesta região, além dos conjunto instrumental dos ZÉS-PEREIRAS e do FADO, teve particular importancia a VIOLA TOEIRA nomeadamente na região de Coimbra, onde hoje infelizmente já não existe nenhum tocador.
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BEIRAS INTERIORES
Sobretudo na Beira-Baixa, o ADUFE é o instrumento mais importante da região. Ele é aí tocado com grande maestria, imaginação e paixão, tanto em festas profanas como religiosas, alvíssaras da Páscoa e Romarias. A FLAUTA TRAVESSA e a PALHETA são passatempo individual de pastores. Na região do Fundão tem grande importãncia os BOMBOS. A VIOLA BEIROA além das funções de passatempo era também um instrumento cerimonial usado na Dança da Genebres e outras que tinham lugar na festa da Senhora dos Altos Céus, na Lousa, e nas Folias do Espírito Santo de grande importãncia nesta região.
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ESTREMADURA
Na Estremadura o ACORDEAO, se bem que seja um instrumento muito difundido por todo o país tem um lugar muito especial nos bailes acompanhando o fandango, o passecate, o verde gaio, a contradança, etc. Também a GAITA DE FOLES é um elemento imprescindível dos Círios da região. Em Lisboa tem grande destaque a GUITARRA PORTUGUESA e o VIOLÃO por vezes acompanhado pelo VIOLÃO BAIXO no conjunto do FADO.
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ALENTEJO
No Alentejo existem três formas instrumentais: TAMBORIL E FLAUTA na região além Guadiana. O PANDEIRO quadrangular e a PANDEIRETA majs a norte da província. Mais a sul a VIOLA CAMPANIÇA como instrumento acompanhador do canto e animador dos bailes da região.
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ALGARVE
No Algarve além dos instrumentos de tuna e do ACORDEÃO, na região da serra encontra-se com frequência a FLAUTA TRAVESSA feita de cana.
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MADEIRA
Na Madeira têm grande importância os conjuntos formados pelos instrumentos de corda: a VIOLA DE ARAME, o RAJÃO e a BRAGUINHA e a RABECA ou VIOLINO, que acompanham os cantadores e a dança nas festas públicas que se realizam na ilha.
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AÇORES
Os instrumentos mais importantes das ilhas dos Açores são as violas com dois tipos distintos: A VIOLA MICAELENSE com a boca em forma de dois corações e a viola TERCEIRENSE com a boca redonda. Ambas se usam em ocasiões festivas a solo ou a acompanhar o canto e a dança, nas romarias, aos serões. Também nas festas do Espirito Santo de grande importãncia em todas as ilhas, os Foliões, grupos de tocadores que acompanham os vários momentos da festa e tocam o TAMBOR DA FOLIA juntamente com o PANDEIRO, fuste de pandeireta sem pele, na ilha de S. Miguel. Nas ilhas de S. Maria, Flores e Corvo o acompanhamento do tambor é feito com os TESTOS, pequenos pratos metálicos que se batem um contra o outro.


Os Conjuntos


Apesar da importancia da música vocal tradicional em Portugal nomeadamente no Alentejo com os corais masculinos ou as canções polifónicas a três e quatro vozes minhotas e beirãs além dos cantos de trabalho, canções de embalar, os instrumentos têm funções muito importantes na vida das comunidades que os utilizam. Geralmente construídos pelos próprios tocadores ou por habilidosos locais, mantendo formas e técnicas de construção que se foram perpetuando ao longo dos anos, foram também fixando funções de carácter ora cerimonial ora lúdico, onde o próprio instrumento dava significado a essas festas e a essas cerimónias. Tocadores de gaita de foles que acompanham o Cirio da região estremenha, e Zés Pereiras minhotos que acompanham pela aldeia o compasso pascal são exemplos dessa funcionalidade da música e dos instrumentos ao serviço de uma cultura onde estes objectos de fazer música ocupavam um espaço muito importante. Alguns destes instrumentos nunca tocam isolados mas integrados em pequenos grupos instrumentais que caracterizam formas musicais próprias onde cada instrumento tem uma função específica. Formando parte de um todo que se apresenta geralmente em situações festivas ou cerimoniais, estão ligados aos momentos mais importantes da vida dessas comunidades, prestigiando assim quem os integra e a aldeia a que pertencem.

ZÉS PEREIRAS


Também no Minho e na região de Coimbra encontra-se a gaita de foles acompanhada de caixa e bombo, por vezes em grande número nas festas e romarias, cortejos, procissões, visitas pascais. Na região de Coimbra os Zés Pereiras são especialmente requisitados para os desfiles de Carnaval não só dessa zona mas de todo o país.



GAITEIROS


Da região de Trás-os-Montes é composto pela gaita de foles, caixa bombo. É o grupo instrumental mais importante da região para as grandes festas. danças de Pauliteiros, procissões, peditórios, ofícios religiosos, Festas dos Rapazes, etc.


TAMBORILEIRO


É um conjunto composto por tamboril e flauta tocado por um só individuo. Surge em duas regiões. Em terras de Miranda, Trás-os-Montes com as mesmas funções e o mesmo reportório da gaita de foles. Na área além Guadiana em Vila Verde de Ficalho e Sto.Aleixo da Restauração, Alentejo também com carácter cerimonial muito pobre, tocando exclusivamente na festa do padroeiro local.

RUSGA


Composto essencialmente por instrumentos de corda, cavaquinho, viola braguesa e violão, são acompanhados ritmicamente pelo tambor, os ferrinhos e o reque reque. Mais modernamente surge também a concertina ou o acordeão. As rusgas minhotas são grupos festivos que se podiam ver a caminho das festas e romarias e nos trabalhos colectivos da região, acompanhando a dança que espontâneamente se organizava.


FADO


Na região de Lisboa e de Coimbra a guitarra e o violão acompanham uma forma específica, o fado, que em Lisboa é característico dos bairros populares, e que em Coimbra se encontra relacionado com o ambiente estudantil da Universidade.

CHULA
É uma forma musical, instrumental, vocal e coreográfica de todo o Noroeste e mais especificamente da região compreendida entre os rios Douro e Tâmega. Semelhante à RUSGA, tem no entanto um carácter mais definido. A viola utilizada é a viola amarantina e utiliza um instrumento específico a rabeca chuleira, espécie de violino de braço muito curto e escala muito aguda que sublinha a melodia e improvisa nos longos «ritornellos» instrumentais entre o cantador e a cantadeira que cantam ao desafio.

BOMBOS
Na região da Serra da Estrela (Lavacolhos, Silvares, Souto da Casa) surge o conjunto instrumental dos BOMBOS composto por bombos e caixas acompanhados por uma flauta travessa cuja melodia bastante aguda se sobrepõe ao poderoso troar dos bombos.


Os Instrumentos


Os intrumentos musicais populares portugueses pertencem à tradição organológica europeia, e para a sua descrição seguimos a classificação de C. Sachs e Hornbostel, que agrupa todas as espécies existentes em quatro categorias, conforme a natureza do elemento vibratório.

Membranofones

Trata-se dos Instrumentos cujo elemento vibratório é uma membrana retesada.
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Cordofones

Instrumentos cujo elemento vibratório é uma corda ou mais cordas esticadas.
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Idiofones

O elemento vibratório é o próprio corpo do instrumento, constituido por materiais mais ou menos vibráteis, independentemente da sua tensão.

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Aerofones

Instrumentos cujo elemento vibratório é o ar accionado de modo especial pelo instrumento.